Dedico um pouco do meu tempo pra falar da morte. O fim para alguns, o recomeço para outros. Um ritual de passagem de uma realidade material para uma realidade etérea, talvez. Mas independente disso um fato concreto e inevitável que faz parte de nossas vidas e que pelo seu caráter desconhecido e impalpável, lidamos com determinado respeito.
Eu respeito a morte. À respeito mais do que as pessoas que morrem, em muitos casos. E não me agrada ver o desrespeito à ela.
"Algumas pessoas morrem de velhice mesmo. Dormem e nunca mais acordam." Os que ficam velam pela matéria desejando vida boa do outro lado. Do lado de lá. Pensam em tudo que a pessoa que se foi construiu em vida. Que ela viveu. Valorizam sua trajetória e se confortam ao saber que o seu objetivo maior foi cumprido: viveu o máximo que pôde.
Outros perdem a vida prematuramente. Um assassinato ou acidente torna a partida de quem morreu ainda mais dolorosa.
Quando alguém morre, não nos interessa mais saber se ele foi ou não uma boa pessoa. Já nem estamos falando mais da pessoa em si, pois ela já morreu. A gente se relaciona é com a morte.
Penso na morte de um gladiador que exibia seus dotes guerreiros, mas foi vencido pelo oponente. Penso num público gritando e comemorando o vencedor, já se esquecendo de que ali houve uma morte, uma passagem ou um fim.
Penso em uma pessoa, criminosa ou não, sendo executada em praça pública após algum julgamento que a considerou culpada. Penso nas pessoas comemorando sua execução. Puro circo. Pura catarse. E a morte, e toda a sua carga simbólica, ignorada.
Essa semana não foi muito diferente disso. Nem vou citar a situação, mas todos acompanharam. Eu não tinha nenhum respeito pelo morto, não tinha nenhuma consideração pela sua vida. Mas respeito à morte eu tenho. Não a morte de quem morreu, mas a morte em si e, portanto sinceramente não consigo ver motivo de comemoração.
Voltamos um pouco à época dos gladiadores, à execução em praça pública e esquecemos o valor que tem a morte para a celebração da vida.




